quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Clássico "As Quatro Estações" da Legião Urbana

 
O disco mais marcante da Legião Urbana marcou definitivamente a música brasileira no final da década de 1980. Com letras que abordavam críticas sociais, amor e sexualidade, a sonoridade presente em "As Quatro Estações" ganhou o Brasil, chegando a ter o incrível numero de nove hits das onze faixas do disco sendo tocadas repetidamente pelas rádios do país. O resultado foi a marca de quase dois milhões de cópias vendidas e um espaço intocável na historia musical brasileira.

Maior expressão do rock brasileiro da década de 1980, a Legião Urbana surgiu em Brasília agosto de 1982, com Renato Russo nos vocais e teclados, Dado Villa-Lobos nas guitarras, Marcelo Bonfá na bateria e Renato Rocha no baixo. O disco de estreia "Legião Urbana" se deu em 1985, que trazia os hits "Será", "Ainda é Cedo" e "Geração Coca-Cola", esta última virou o hino da geração oitentista, vendendo 150 mil copias, e chamando a atenção de todo o país para os garotos de Brasília. No ano seguinte, veio o disco que consagraria a banda. O "Dois" vendeu mais de 1 milhão de cópias e emplacou canções inesquecíveis como "Eduardo e Mônica", "Quase Sem Querer", "Tempo Perdido", "Índios", "Andrea Doria" e "Fábrica"; todas bem tocadas nas rádios brasileiras. Este disco tornou Renato Russo a voz de uma geração, despertando a admiração da crítica para a poesia do vocalista. Existia algo a mais que distorção e rebeldia na então novata Legião Urbana; havia uma revolta, um protesto, uma visão política, um líder. O terceiro álbum veio em 1987. Intitulado "Que País É Este 1978/1987", o disco trazia composições antigas de Renato ainda na época do Aborto Elétrico (banda anterior à Legião Urbana que o vocalista liderava), e músicas gravadas para o "Dois" que não entraram no disco, em virtude da desistência da gravadora da realização do que seria álbum duplo. Com letras mais juvenis e aproximação com o punk rock, o disco se destaca nas clássicas "Que País é Este" e "Faroeste Caboclo", além das baladas "Eu Sei" e "Angra dos Reis". Como no segundo trabalho, foram mais de 1 milhão de discos vendidos, comprovando a força fonográfica da banda.

A consagração definitiva ainda estava por vir. Em julho de 1989 o quarteto retornava aos estúdios para a gravação do trabalho mais cultuado da banda. "As Quatro Estações" mostraria toda a intelectualidade do líder da 'Geração Coca Cola' pelas suas críticas sociais, todo seu romantismo pela sua  poesia lírica e toda sua autenticidade quando assumiria sua bissexualidade. Em outubro, sob a produção de Mayrton Bahia, o lendário "As Quatro Estações" foi lançado.  Agora não mais um quarteto, Renato Rocha foi expulso devido à desentendimentos com os membros, particularmente com o baterista Bonfá. Devido ao fato, as linhas de baixo foram regravadas por Dado Villa-Lobos e Renato Russo, tornando o álbum da Legião em que o vocalista mais participa como músico , assumindo em muitas canções baixo, violão, teclado, guitarra e até gaita. Todas as letras do disco são de Renato, e musicadas pelo trio Russo, Bonfá e Dado, com exceção de "Monte Castelo" em que o vocalista assina letra e música. O trabalho também marca a primeira experimentação com novos instrumentos. Dado Villa-Lobos toca bandolim em duas faixas e Renato Russo divide as gaitas com Bonfá em "Sete Cidades".

A faixa que abre o disco é a confessional "Há Tempos", em que o vocalista demonstra seu sentimento após  descobrir ser um portador do vírus HIV, em que versa "E há tempos são os jovens que adoecem; E há tempos o encanto está ausente, e há ferrugem nos sorrisos". Renato Russo nunca assumiu publicamente ser portador da doença, talvez por isso a canção seja cantada praticamente na segunda pessoa. O segundo verso da canção "muitos temores nascem do cansaço e da solidão" foi retirado de um evento católico em que a prima do vocalista participou em Portugal.
 "Pais e Filhos" é a principal música do disco e uma das mais importantes da banda. Seu refrão se tornou lema dos fãs: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar na verdade não há". Nota-se também aqui um sentimento forte de incerteza do futuro, proveniente de um fato e também dos reflexos do HIV que afligia o artista, que se evidencia no trecho "Quero colo! Vou fugir de casa! Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo, tive um pesadelo". Com uma pegada blues, cabe destacar o riff do violão  de Renato e os solos da guitarra de Dado decorrer da canção. Realmente uma obra prima aos ouvidos.
A experimental "Feedback Song For A Dying Friend" mescla o peso do rock com a musica oriental, sob distorções de heavy metal unida a um final de música árabe. A letra poética carrega traços do lirismo mediaval, como em "Seus olhos chispantes podem retalhar minha pele bárbara"
"Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto" representa um dos melhores momentos da obra, versando sobre a esperança e atitude. Há espaço até para a introdução de uma frase em que Russo leu em um quarto de hotel, no livro de Doutrina Budista. O trecho é "Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor". A musicalidade é a mais simplória do disco, não sendo isto uma fraqueza da canção.
A longa "Eu Era Um Lobisomem Juvenil" soa confusa e poética. Os pensamentos soltos e incertos do compositor se atestam em trechos como "não consigo ver sentido no que sinto" e "nem eu mesmo sei direito o que está acontecendo". A música se configura sem nenhuma linha pensamento exata, mais parecendo um desabafo descomprometido com o nexo. Destaque para os teclados do próprio Renato Russo no fim da canção e os arranjos de bandolim de Dado.
A intensidade e atitude da Legião Urbana estão perfeitamente simbolizadas em "1965 (Duas Tribos)". A postura crítica e política da banda são bem mostrados nessa canção, que canta a tortura da ditadura, e os outros aspectos impostos do regime sobre o povo. "Cortaram meus braços, cortaram minhas mãos, cortaram minhas pernas num dia de verão" ilustram bem a faixa. Renato assume o baixo e cria uma linha bem interessante para a música.
"Monte Castelo" é outra música épica do álbum. Mescla trechos bíblicos do apóstolo Paulo com a poesia lusitana de Camões. Renato dá aos versos a harmonia perfeita que os evidencia de forma bela. O vocalista assume as guitarras da canção, sendo a primeira e única vez que Renato toca este instrumento em um disco.
"Mauricio" se destaca pelos sintetizadores, órgãos e arranjos de bandolins. Bem no estilo A-ha e Phil Collins. É claro que a harmonia da canção é completamente diferente dos estilos citados, dando assim a sua originalidade e personalidade de Legião Urbana. Maurico foi um ex-namorado do vocalista.
"Meninos e Meninas" demonstra a autenticidade do compositor, que assume sua bissexualidade versando "E eu gosto de meninos e meninas". Destaque também para a criativa estrutura harmônica imprevisível da faixa.
"Sete Cidades" e "Se fiquei Esperando o Meu Amor Passar" fecham o disco com o romantismo poético de Renato. A primeira as gaitas são tocadas por Bonfá e Russo, e a última as guitarras são tocadas pelo vocalista, deixando Dado no baixo. Com levadas praticamente iguais, as faixas mostram bem a potencia vocal do cantor, indo dos faucetes aos agudos rasgantes. Concluem o álbum com chave de ouro.

"As Quatro Estações" é a feliz união da crítica política, poesia e sentimentos intimistas sob à energia do rock brasileiro. Não existem discos iguais, nem sequer parecidos com este. É único e original. Nem a própria Legião Urbana repetiu o formato do álbum. Renato Russo já disse diversas vezes que este era o melhor disco da banda, e o que ele mais se orgulhava de ter gravado. Seguramente, um clássico absoluto.





Ouça agora mesmo o disco na íntegra. Faça o download gratuito, clicando no link abaixo:
http://www.mediafire.com/download/b26afdmn4jnssph/1989+-+As+Quatro+Esta%C3%A7%C3%B5es.rar 
 
 
 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Psicodelia e O Pop de "Cosmotron" do Skank

Há dez anos atrás, o cenário musical brasileiro era surpreendido positivamente pelo épico disco "Cosmotron" da banda mineira Skank. O estereótipo futebolístico, dançante e festivo do grupo, foi radicalmente controvertido pela nova sonoridade que o quarteto adotava, o psicodelia flertada ao pop. O intuito era fugir dos caminhos óbvios do rock popular, incrementando o psicodelismo fundido ao pop, evitando assim uma rejeição radiofônica. A aposta deu tão certo, que o disco chegou a vender mais de 200 mil cópias, sendo aclamado pela crítica e pelo grande público. Os hits "Vou Deixar" e "Dois Rios" emplacaram rapidamente nas rádios de todo o país, além de mais duas canções do disco frequentando o top das paradas. Entenda como o Skank conseguiu popularizar o rock psicodélico e se conceituar definitivamente como uma das maiores bandas de rock brasileiro.

Em 1993, quatro mineiros  apareceram para o país vestidos de camisetas de clubes de futebol, tocando uma mistura de rock, reggae, ska e dub.  O disco era "Calango", com letras que abordavam em grande parte os temas sociais com uma certa ironia. O sucesso foi certo. Mais de 1 milhão de discos vendidos rapidamente em todo o país. Em 1996, o álbum "Samba Paconé" atingiu a impressionante marca de 2 milhões de cópias vendidas. O Skank era a banda de rock mais vendida do Brasil, e vista como a grande novidade pop do país. Diante do estrondoso sucesso que faziam, notou-se uma necessidade de amadurecimento do som. Daí surge o "Siderado" em 1998; um trabalho com mais experimentos eletrônicos e até a balada orquestrada "Resposta". Realmente o Skank estava mudando. O disco vende 750 mil cópias, se mostrando ainda assim como tendo ótima receptividade de público, rádio e crítica. A banda chaga nos anos 2000 como a mais popular e mais vendida banda de rock da década. Em 2000 o quarteto lançam o "Maquinarama", que transmitia claramente o espírito do Skank procurando uma nova sonoridade. A novidade desta vez surgia no abandono dos tradicionais metais, e um tímido flerte com o psicodelismo. Realmente não foi um bom disco. Soava inseguro, sem uma linha definitiva de som, e sem um grande hit para diluir o trabalho pelas rádios.  As vendas foram insatisfatória, não chegando à sequer um terço do trabalho anterior "Siderado". Aproveitando a onda dos lançamentos ao vivo, o Skank fez o "MTV Ao Vivo em Ouro Preto", reunindo as grandes canções dos 5 discos gravados da banda, e ainda uma inédita, esta foi "Acima do Sol", uma balada que emplacou o disco nas rádios brasileiras, recolocando a banda no top das vendagens dos discos e reconquistando seu espaço no grande público.

Em 2003, com a produção de Tom Capone e do próprio Skank, a banda lança o "Cosmotron". O álbum foi uma mudança definitiva na musicalidade do quarteto. "É nítido, direto e inquietante / Eu diria totalmente extravagante". Os versos iniciais de "Supernova"  que abrem o disco representam com fidelidade a nova sonoridade do Skank. Mantendo a ausência dos metais, a linha fundamental do disco foi a psicodelia, com flertes eletônicos e pop. As letras abordam temas relacionais com linguagem mais abstrata e metafórica, deixando-as com um aspecto maduros e contundentes. A sonoridade do "Cosmotron" se baseia na forte influencia do Clube da Esquina, Oasis e Beatles. A mudança e o experimentalismo do disco poderiam afastar o Skank do grande público, das paradas e consequentemente desaguar e um novo fracasso nas prateleiras. Para isso, o disco trouxe duas canções pop de fácil e rápida apreciação radiofônica, a single "Vou Deixar" que ficou no topo das paradas durante todo o ano de 2003, e "Amores Imperfeitos", que também foi bem tocada nas rádios do país. O psicodelismo eletrônico surge na faixa que abre o disco "Supernova", "Pegadas na Lua", "Nômade" (com trechos falados em árabe) e "Formato Mínimo", esta última canta uma interessante história de um casal sob dois ângulos diferentes, o masculino e o feminino. A psicodelia  britânica se percebe em "Por Um Triz", "Resta Um Pouco Mais" e "Um Segundo". As baladas psicodélicas ficam por conta da surpreendente "Dois Rios", que foi muito bem recebida nas rádios, e "As Noites". A eletrizante "Os Ofendidos" realça a essência efervescente da banda, com uma pegada forte, distorções e vocal em eco, e um destaque até para os arranjos de órgão.  Outras surpresas como "É Tarde" e "Sambatron"  encorpam o disco, com uma mistura bem inventiva de bossa nova com elementos eletrônicos.

Para quem se lembra de 1986, três discos marcaram para sempre o rock brasileiro naquele ano. "Dois" da Legião Urbana, "Selvagem?" dos Paralamas do Sucesso e "Cabeça Dinossauro" dos Titãs formaram a trinca de ouro da discografia rockeira brasileira. Em 2003 quase vimos uma nova tríade de clássicos do rock 'brazuca'. "Ventura" dos Los Hermanos e "Cosmotron" do Skank ficaram à espera de um terceiro disco que completasse o que seria a trinca contemporânea do rock brasileiro. Infelizmente este disco não veio,  talvez por que as bandas de rock estavam saturando o mercado de lançamentos ao vivo e acústicos, caindo nos modismos baratos e nada originais. Com certeza, o "Cosmotron" entrou para a história e para o grupo seleto dos discos mais importantes da música brasileira.


Ouça agora mesmo o disco na íntegra. Faça o download gratuito, clicando no link abaixo:
http://depositfiles.org/files/gahbqmwuw 
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O Fantástico "Ventura" do Los Hermanos

O disco "Ventura" da banda brasileira Los Hermanos marcou o fim de um fastio inventivo e influente do rock nacional. Foram praticamente 10 anos sem um album marcante e tendencial ao mesmo tempo. Até que em 2003 foi lançado o fantástico "Ventura", pela BMG (atual SonyMusic). O álbum trazia a conjunção do rock com a mpb, sem soar imaturo nem frio. O trabalho foi premiado com disco de ouro pela significante marca de 50 mil cópias vendidas, consagrando Marcelo Camelo como grande compositor da música brasileira e Rodrigo Amarante como exímio guitarrista pela pegada rock sob acordes de bossa e samba. O "Ventura" ainda teve a pré-produção vazada na internet, sendo o primeiro disco brasileiro a ser divulgado ilegalmente antes de seu lançamento oficial. Saiba mais sobre o album e todos os outros aspectos que tornaram "Ventura" um dos discos mais importantes do rock brasileiro de todos os tempos.

Os Los Hermanos surgiram no cenário musical brasileiro em 1999, com o sucesso estrondoso de "Anna Julia", seguido por "Primavera". Em todas as rádios do país,  "Anna Julia" grudando que nem chiclete, o álbum de estreia da banda alcançou a incrível marca de 300.000 copias vendidas. A introdução dos metais ao hardcore, incrementado à letras românticas foi realmente uma novidade chocante à época, porém muito bem sucedida, tendo o principal hit da banda regravada até pelo ex-beatle George Harrison. Depois do assédio, veio em 2001 o "Bloco do Eu Sozinho", cujo processo de produção foi inteiramente em um sitio, onde a banda se isolou no Rio de Janeiro. Com o trabalho pronto, o disco foi rejeitado pela gravadora que o considerou amador, além de não ter nenhum hit radiofônico. O hardcore deixou de ser a marca forte da banda, passando a ter um som mais indie e experimental.  A crítica se surpreendeu com a mudança radical do novo trabalho, e fez boas criticas ao disco. Mas nas prateleiras das lojas, o cd foi praticamente ignorado pelo público, chegando a inexpressiva marca de 35 mil cópias. Mas foi a partir dali que a banda definiria o som indie e experimental como a principal marca de sua musicalidade, incorporando elementos da música brasileira. O "Bloco do Eu Sozinho" foi uma espécie de 'projeto' de luxo para o "Ventura", embora não tenha sido gravado com esta intenção.

As baixas vendagens do "Bloco do Eu Sozinho" não atingiram em nada a banda, que entrou em estúdio novamente em 2003 para gravar o que seria uma das mais belas obras primas da música brasileira, o "Ventura".  De início, o disco se chamaria "Bonança", contudo, mudou-se para um nome com uma fonética mais forte, e de sentido amplo. O trabalho é caracterizado pelo já citado indie rock, junto ao experimentalismo inventivo com elementos musicais brasileiros. Tal junção de gêneros, ritmos e sons não soaram imaturos, muito menos frios. Há espaço para canções vibrantes e outras mais intimistas. A pegada rock estilo indie se faz presente nas faixas "Um Par" e "Último Romance" de Amarante, e nas 2 singles de Camelo "Cara Estranho" e "O Vencedor". O experimentalismo com elementos e gêneros brasileiros conota-se em "Samba a Dois", com um balanço e swing contagiante; "Do Sétimo Andar" com estrutura harmônica de bossa com arranjamento de metais; "Além do Que Se Vê" e  "Conversa de Botas Batidas" com flerte rítmico de samba; "O Pouco que Sobrou" que segue uma linha de bossa nova porém totalmente acelerada, com efeitos eletrônicos e um solo de guitarra ecoado. A proximidade com a música circense vê-se em "Deixa o Verão" e "Do Lado de Dentro"; até o andamento da jovem guarda são bem usados pela trupe carioca, "Tá Bom" e "A Outra" atestam bem essa linha. A enigmática "O Velho e o Moço" é um dos grandes momentos do disco, de compasso firme, porém dosado em consonância com os metais perfeitamente arranjados. A única balada fecha o "Ventura" como uma das melhores canções do Los Hermanos, "De Onde Vem a Calma" é doce e sutil, sem nenhum momento parecer enjoativa ou melancólica.
Uma curiosidade sobre o disco é que este teve sua pré-produção vazada na internet, saindo à público todas as faixas do álbum em qualidade amadora, porém servindo de prato cheio aos fãs da banda. Tal fato tornou o "Ventura" o primeiro disco brasileiro a ser liberado ilegalmente no Brasil.

O disco marca o fim de um fastio de praticamente 10 anos sem uma obra de influencia para as próximas gerações.  O ultimo disco de forte influencia até então era o "Da Lama ao Caos" de 1994, de Chico Science e Nação Zumbi. Já foi até eleito algumas como o melhor disco brasileiro de todos os tempos em diversos sites na internet. Exagero ou não, fato é que a partir do lançamento do "Ventura" novas bandas surgiram com a mesma ousadia experimental do disco, mesclando o indie rock à musica brasileira como samba e bossa nova. O incremento dos metais ao rock passou a ser feito com mais frequência também. Os Los Hermanos marcaram a música brasileira definitivamente com o "Ventura", mostrando-se um álbum atemporal e acima de tudo tendencial.


Em virtude de reclamações dos direitos autorais, o Levecanto não disponibilizará o download deste disco.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O Bom "Comedown Machine" dos Strokes

Uma das bandas mais importantes do mundo vem mantendo o seu posto há mais de uma década, caracterizando-se sempre pela postura inovadora, inventiva e original de som . E neste novo trabalho, o The Strokes deixaram claro mais uma vez  seu explícito desprendimento aos rótulos e gêneros musicais, mostrando-se apenas como uma banda de rock em busca do novo. Desta vontade, nasceu o "Comedown Machine".

Lançado em 26 de março de 2013, o "Comedown Machine" surge como o melhor disco de rock do ano até o momento. É o ultimo trabalho pela gravadora RCA, concluindo o contrato de 5 discos pela companhia. Embora a proposta do álbum não seja das mais originais, a fusão do indie rock marcante dos Strokes aos elementos eletrônicos, além de fortes flertes com a new wave resultam em um som agradável, sem exageros nem sintetizadores perturbantes. O disco é bem dosado, maduro e de verve inventiva. Com a clara preocupação de não se repetir aos discos anteriores, ironicamente o álbum tem um pouco de cada trabalho já realizado pela banda. Na pegada do consagrado "Is This It" de 2001 vemos "All The Time" e a faixa que intitula o disco "80's Comedown Machine", esta representa o melhor momento do album. Na linha do "Room of Fire" de 2003 temos "Welcome to Japan" e do "Firts Impressions" de 2006 encontramos "Happy Ending". Até mesmo o disco considerado por muitos o deslize dos Strokes tem seus vestígios no novo trabalho da banda. "Angles" pode ser assimilado (levemente) em "Welcome to Japan" e "Partners in Crime" esta ultima tem toda a sua base eletrônica e sintetizada, bem ao estilo do álbum anterior. A aposta aparece nas novidades de "Tap Out", "One Way Trigger", "Slow Animals", e"Chances" em que Julio Casablancas adota o faucete (técnica vocal aveludada se assemelhando quase que com a feminina) como linha definitiva de canto. É o trabalho com maior uso de faucete dos Strokes, e só para reforçar minha afirmação, ainda não citei as duas lentas e intimistas "50 50" e "Call It Fate Call It Karma". Que seguem em compasso quase soníferos, porém ainda com refrãos marcantes. Uma palavra definitiva incorporada ao 'novo' The Strokes seria sensibilidade. Notam-se vocais mais brandos, e guitarras mais arranjadas no detalhe do que no volume. As linhas de guitarras da dupla Albert Hammond e Niki Valensi são espetaculares. Inteligentemente bem intercaladas, e perfeitamente sincronizadas. O baixo de Nikolai Freiture talvez seja uma das fraquezas do disco, passando desapercebido em quase todo o álbum, restringindo-se à grooves pequenos e nada inventivos. O brasileiro Fabrizio Moretti deixa mais uma vez sua pegada marcante no som dos Strokes. Sôa enérgico nos momentos precisos, quebra os compassos sem descaracterizá-los com muita personalidade. As baquetas de Moretti são facilmente identificadas pela pegada pulsante que cria com maestria.

O "Comedown Machine" com certeza não é o melhor trabalho dos Strokes (será difícil superar o "Is This It"), mas é um disco que mostra a força criativa ainda forte e bem sucedida da banda. O quinteto provou mais uma vez que ainda tem muito para mostrar, e que não se deixarão cair em repetições enjoativas, muito menos se tornarão previsíveis. Não é por acaso que  Casablacas e companhia foram considerados a banda mais influente da década passada, e citados como referenciais de nomes como Arctic Monkeys e The Killers, e ainda conseguir arrancar elogios do ex-Oasis Noel Gallagher. O novo disco da banda veio justamente para manter a vitalidade inventiva e influenciadora da banda. Com certeza é um bom disco dos Strokes.

Ouça agora mesmo o disco na íntegra. Faça o download gratuito, clicando no link abaixo:
http://www.4shared.com/zip/6m5GKDLL/the_Strokes_-_Comedown_Machine.html

 

sábado, 20 de julho de 2013

40 Anos de "Manera Fru Fru Manera" de Raimundo Fagner

Um dos discos mais emblemáticos da música brasileira está completando 40 anos. São 4 décadas atravessadas através de canções que se eternizaram na memória de muita gente. Por outro lado, talvez não exista um disco tão conturbado e polêmico na história da MPB, com 3 acusações de plágio, sucesso radiofônico seguido pelo irônico fracasso de vendas, e mais 26 anos de censura da principal música do disco. Nunca a ausência de um encarte fez tanta diferença em um lp. Entenda toda a história desta formidável obra de música brasileira.

Lançado em maio de 1973 pela maior gravadora do país na época, a Phillips, o disco de estreia Manera Fru Fru Manera do cearense recém chegado no Rio de Janeiro Raimundo Fagner, marcava o inicio do que foi denominado de "Invasão Nordestina" no cenário musical brasileiro na década de 70.
Com a produção de Roberto Menescal, direção de Paulinho Tapajós e arranjos de Ivan Lins e do próprio Fagner, o disco do então desconhecido artista, precisava de um trunfo atraente para atingir boas vendagens. Nomes importantes então foram incorporados ao álbum para encorpar o trabalho: Nara Leão divide duas canções com Fagner, o incrível Naná Vasconcelos assina as percussões e o talentoso baixista inglês Bruce Henry participa das gravações e até divide os vocais com Fagner em "Serenou na Madrugada".

A estética musical da obra foi completamente desprendida da usual daquele momento. Fagner recusou a orquestração das musicas, e coibiu arranjos excessivos. O que se tem, são harmonias bem construídas sob arranjos inventivos e ousados. A musicalidade do disco é formidável.

O repertório é magnifico. Toda a regionalidade do artista é evidente nas faixas "O Último Pau de Arara", (clássico da obra), "Penas do Tiê" (com Nara Leão), "Sina" (uma das melhores canções da carreira da Fagner e a sua primeira inclusa em novela),"Como se Fosse" e "Serenou na Madrugada" com Brucy Henry.
Os flertes com o rock e com o blues ficam notáveis em "Nasci Para Chorar" e "Moto 1". Em tom psicodélico e fortemente nordestino temos "Tambores" e "Manera Fru Manera", esta última com cítara indiana, elementos linguísticos nordestinos e de complexa compreensão. O romantismo lírico surge na linda "Mucuripe" (com letra de Belchior e música de Fagner, a canção já havia sido gravada no ano anterior por Elis Regina, sendo considerada pelo próprio Fagner a música mais importante de sua carreira)  e no sucesso de "Canteiros".

A voz seca de sotaque forte, trêmula e de agudos gritantes, segundo o próprio Fagner foi mal compreendida pela crítica da época. O crítico Mauricio Kubrusly (aquele mesmo do "Me Leva Brasil"), chegou a afirmar em 1973 que Fagner tinha a 'maravilhosa voz de taquara rachada', e que 'seria impossível ter ouvido para escutar o lado b' do lp. Críticas fortes que pesaram muito no lançamento. Para desfavorecer ainda mais o disco, a gravadora tinha os baianos como os fortes artistas da companhia, e devido à uma séria briga entre Fagner e Caetano Velozo, a gravadora decidiu não colocar o encarte nas prensagens do lp, o que prejudicaria seriamente Fagner com relação aos direitos autorais dos compositores gravados. O cearense também era enviado para fazer shows nos lugares mais distantes do país, se ausentando do eixo Rio - São Paulo, assim passando desapercebido do grande público e da mídia. Enquanto isso, Fagner ia aos jornais e afirmava com todas as letras que estava sendo 'boicotado', que a própria gravadora era um ninho de vespa. Dizia que só permanecia na companhia em virtude da importância de se estar fazendo o primeiro disco. Mesmo diante de todo este impasse, a canção "Canteiros" tomava as rádios do pais progressivamente, e o nome do artista surgia para o público sem a menor divulgação da gravadora. Por fim, o disco atinge uma inexpressiva marca de 5 mil cópias vendidas, contradizendo o sucesso de "Canteiros" nas rádios. A Philips então decide retirar o "Manera Fru Fru Manera" de catálogo. Após a decisão, Fagner rompe com a gravadora e volta aos jornais para criticar Caetano e a Philips. O disco voltaria às prateleiras em 1976, aproveitando as ótimas vendagens de Fagner na gravadora CBS, mas seria retirado de catálogo em virtude de uma ação judicial sob a acusação de plágio sobre a música "Canteiros", retornando às lojas somente em 1980 sem a canção censurada, e com "Cavalo Ferro" no lugar.

3 Acusações de Plágio

Canteiros, a canção responsável por elevar o disco foi justamente a última a ser composta. Após as 11 faixas já gravadas, o produtor Roberto Menescal cobrou de Fagner uma canção radiofônica, alegando que sem a tal canção o disco estaria incompleto e deslocado no mercado. Fagner nesta época estava lendo um livro de poesia da Cecilia Meirelles, e se encantou pelos versos da poesia "A Marcha", e se baseou neles para compor "Canteiros". Confira o trecho que a canção se baseia:

"Quando penso no teu rosto fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino já me dá contentamento."

Fagner então usa somente deste trecho a poesia para iniciar os versos de "Canteiros", porém, 3 anos após a gravação as filhas da poetisa entram com uma ação contra Fagner e a Phillips, alegando uso indevido e desautorizado da obra de Cecília Meireles. As herdeiras de Cecília ganham a causa, e todos os discos "Manera Fru Fru Manera" que haviam sido relançados em 1976 foram imediatamente retirado das lojas. Fagner alegava sua inocência afirmando que o crédito da poetisa não apareceram na contracapa (que constava somente Raimundo Fagner), porque apareceria no encarte com a seguinte informação "baseado nos versos do poema 'a marcha' de Cecilia Meireles." O artista e a gravadora perderam na justiça a causa, e pagaram uma multa milionária aos Meireles, gravando a canção somente 26 anos depois, em virtude de um acordo com a SonyMusic para a liberação da canção para a gravação do cd ao vivo Fagner em 2000.

Além de "Canteiros", a canção "Penas do Tiê" gravada em dueto com Nara Leão também foi acusada de plágio. Os créditos da música constavam somente "Folclore; adap. Raimundo Fagner", apresentando a canção como folclórica. Porem, a musica seria do maestro Hekel Tavares composta na década de 50, sob o nome de "Você". Os filhos do maestro só perceberam o plágio quase 3 décadas depois, e ainda por cima, a canção teve mais 4 regravações, além de sua introdução em algumas compilações do artista. A indenização pedida pelos filhos de Hekel foi de R$400.000,00.

A faixa "Sina" também foi acusada de plágio. No disco apresentava Fagner e Ricardo Bezerra como autores da canção, embora os versos tenham sido pinçados da poesia de Patativa do Assaré. Fato este reconhecido por Fagner e Ricardo, introduzindo aos créditos da musica do nome de Patativa. Não houveram ações judicias à respeito desta musica.

"Manera Fru Fru Manera" é um clássico definitivo do cancioneiro brasileiro. Poético, terral, emblemático e polêmico. Um disco de canções marcantes e de um lirismo nordestino apaixonante. O lp original com "Canteiros" é uma relíquia desejada por muitos colecionadores de vinil, e que pessoalmente me orgulho muito em tê-lo em meu acervo. Disco épico, marcante e de original musicalidade.

Não deixe de ouvir o Maneira Fru Fru Manera, baixe agora:
http://www.4shared.com/rar/R7C5vF3-/1973_Manera_Fru_Fru_Manera.html?

 






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