Um dos discos mais emblemáticos da música brasileira está completando 40 anos. São 4 décadas atravessadas através de canções que se eternizaram na memória de muita gente. Por outro lado, talvez não exista um disco tão conturbado e polêmico na história da MPB, com 3 acusações de plágio, sucesso radiofônico seguido pelo irônico fracasso de vendas, e mais 26 anos de censura da principal música do disco. Nunca a ausência de um encarte fez tanta diferença em um lp. Entenda toda a história desta formidável obra de música brasileira.
Lançado em maio de 1973 pela maior gravadora do país na época, a Phillips, o disco de estreia Manera Fru Fru Manera do cearense recém chegado no Rio de Janeiro Raimundo Fagner, marcava o inicio do que foi denominado de "Invasão Nordestina" no cenário musical brasileiro na década de 70.
Com a produção de Roberto Menescal, direção de Paulinho Tapajós e arranjos de Ivan Lins e do próprio Fagner, o disco do então desconhecido artista, precisava de um trunfo atraente para atingir boas vendagens. Nomes importantes então foram incorporados ao álbum para encorpar o trabalho: Nara Leão divide duas canções com Fagner, o incrível Naná Vasconcelos assina as percussões e o talentoso baixista inglês Bruce Henry participa das gravações e até divide os vocais com Fagner em "Serenou na Madrugada".
A estética musical da obra foi completamente desprendida da usual daquele momento. Fagner recusou a orquestração das musicas, e coibiu arranjos excessivos. O que se tem, são harmonias bem construídas sob arranjos inventivos e ousados. A musicalidade do disco é formidável.
O repertório é magnifico. Toda a regionalidade do artista é evidente nas faixas "O Último Pau de Arara", (clássico da obra), "Penas do Tiê" (com Nara Leão), "Sina" (uma das melhores canções da carreira da Fagner e a sua primeira inclusa em novela),"Como se Fosse" e "Serenou na Madrugada" com Brucy Henry.
Os flertes com o rock e com o blues ficam notáveis em "Nasci Para Chorar" e "Moto 1". Em tom psicodélico e fortemente nordestino temos "Tambores" e "Manera Fru Manera", esta última com cítara indiana, elementos linguísticos nordestinos e de complexa compreensão. O romantismo lírico surge na linda "Mucuripe" (com letra de Belchior e música de Fagner, a canção já havia sido gravada no ano anterior por Elis Regina, sendo considerada pelo próprio Fagner a música mais importante de sua carreira) e no sucesso de "Canteiros".
A voz seca de sotaque forte, trêmula e de agudos gritantes, segundo o próprio Fagner foi mal compreendida pela crítica da época. O crítico Mauricio Kubrusly (aquele mesmo do "Me Leva Brasil"), chegou a afirmar em 1973 que Fagner tinha a 'maravilhosa voz de taquara rachada', e que 'seria impossível ter ouvido para escutar o lado b' do lp. Críticas fortes que pesaram muito no lançamento. Para desfavorecer ainda mais o disco, a gravadora tinha os baianos como os fortes artistas da companhia, e devido à uma séria briga entre Fagner e Caetano Velozo, a gravadora decidiu não colocar o encarte nas prensagens do lp, o que prejudicaria seriamente Fagner com relação aos direitos autorais dos compositores gravados. O cearense também era enviado para fazer shows nos lugares mais distantes do país, se ausentando do eixo Rio - São Paulo, assim passando desapercebido do grande público e da mídia. Enquanto isso, Fagner ia aos jornais e afirmava com todas as letras que estava sendo 'boicotado', que a própria gravadora era um ninho de vespa. Dizia que só permanecia na companhia em virtude da importância de se estar fazendo o primeiro disco. Mesmo diante de todo este impasse, a canção "Canteiros" tomava as rádios do pais progressivamente, e o nome do artista surgia para o público sem a menor divulgação da gravadora. Por fim, o disco atinge uma inexpressiva marca de 5 mil cópias vendidas, contradizendo o sucesso de "Canteiros" nas rádios. A Philips então decide retirar o "Manera Fru Fru Manera" de catálogo. Após a decisão, Fagner rompe com a gravadora e volta aos jornais para criticar Caetano e a Philips. O disco voltaria às prateleiras em 1976, aproveitando as ótimas vendagens de Fagner na gravadora CBS, mas seria retirado de catálogo em virtude de uma ação judicial sob a acusação de plágio sobre a música "Canteiros", retornando às lojas somente em 1980 sem a canção censurada, e com "Cavalo Ferro" no lugar.
3 Acusações de Plágio
Canteiros, a canção responsável por elevar o disco foi justamente a última a ser composta. Após as 11 faixas já gravadas, o produtor Roberto Menescal cobrou de Fagner uma canção radiofônica, alegando que sem a tal canção o disco estaria incompleto e deslocado no mercado. Fagner nesta época estava lendo um livro de poesia da Cecilia Meirelles, e se encantou pelos versos da poesia "A Marcha", e se baseou neles para compor "Canteiros". Confira o trecho que a canção se baseia:
"Quando penso no teu rosto fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino já me dá contentamento."
Fagner então usa somente deste trecho a poesia para iniciar os versos de "Canteiros", porém, 3 anos após a gravação as filhas da poetisa entram com uma ação contra Fagner e a Phillips, alegando uso indevido e desautorizado da obra de Cecília Meireles. As herdeiras de Cecília ganham a causa, e todos os discos "Manera Fru Fru Manera" que haviam sido relançados em 1976 foram imediatamente retirado das lojas. Fagner alegava sua inocência afirmando que o crédito da poetisa não apareceram na contracapa (que constava somente Raimundo Fagner), porque apareceria no encarte com a seguinte informação "baseado nos versos do poema 'a marcha' de Cecilia Meireles." O artista e a gravadora perderam na justiça a causa, e pagaram uma multa milionária aos Meireles, gravando a canção somente 26 anos depois, em virtude de um acordo com a SonyMusic para a liberação da canção para a gravação do cd ao vivo Fagner em 2000.
Além de "Canteiros", a canção "Penas do Tiê" gravada em dueto com Nara Leão também foi acusada de plágio. Os créditos da música constavam somente "Folclore; adap. Raimundo Fagner", apresentando a canção como folclórica. Porem, a musica seria do maestro Hekel Tavares composta na década de 50, sob o nome de "Você". Os filhos do maestro só perceberam o plágio quase 3 décadas depois, e ainda por cima, a canção teve mais 4 regravações, além de sua introdução em algumas compilações do artista. A indenização pedida pelos filhos de Hekel foi de R$400.000,00.
A faixa "Sina" também foi acusada de plágio. No disco apresentava Fagner e Ricardo Bezerra como autores da canção, embora os versos tenham sido pinçados da poesia de Patativa do Assaré. Fato este reconhecido por Fagner e Ricardo, introduzindo aos créditos da musica do nome de Patativa. Não houveram ações judicias à respeito desta musica."Manera Fru Fru Manera" é um clássico definitivo do cancioneiro brasileiro. Poético, terral, emblemático e polêmico. Um disco de canções marcantes e de um lirismo nordestino apaixonante. O lp original com "Canteiros" é uma relíquia desejada por muitos colecionadores de vinil, e que pessoalmente me orgulho muito em tê-lo em meu acervo. Disco épico, marcante e de original musicalidade.
Não deixe de ouvir o Maneira Fru Fru Manera, baixe agora:
http://www.4shared.com/rar/R7C5vF3-/1973_Manera_Fru_Fru_Manera.html?
15:06
Unknown



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6 comentários:
Muito bom... tanto o álbum quanto a resenha...
Vlw J Punk Rocker...
Este álbum foi realmente enigmático.....pensa bem: como pode uma música estourar de sucesso nas rádios e ter a venda abaixo do esperado? Só com artistas que marcam a história acontecem essas coisas.
Parabéns pelo blog Jamil pereira e pela ótima postagem.
Vlw Rafael Pereira. Grato pelo feedback importante.
Brilhante, começou super bem, adorei a resenha, coloquei o disco pra tocar enquanto lia, 40 anos de um som sem igual que nós mostra um artista completo que mesmo com todo o boicote venceu tudo isso pq oq importa realmente é o talento, muito bom mesmo Jamil
Obrigado, Gabi Camargo. Fico feliz que tenha gostado, e que a release tenha te inspirado a ouvir novamente o disco. Grato mais uma vez pelo apoio.
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