quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Poesia e Realidade Se Confundem no "Alucinação" de Belchior

Em meados da década de 1970 o Brasil se rendia a força da palavra cantada de um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Belchior surgiu como o grande nome da música brasileira em 1976, quando lançou o consagrado disco "Alucinação". De letras cruas em tons poéticos, o cearense uniu o folk de Bob Dylan, o rock dos Beatles e o baião de Luiz Gonzaga em uma obra que marcou para sempre a história da musica brasileira.

Nascido no interior do Ceará, no município de Sobral em 1946, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou apenas Belchior, desde de criança já se apresentava na feira de sua pequena cidade com suas poesias e repentes. Sua mãe cantava no coro da igreja, seu pai tocava flauta e saxofone e seus tios eram poetas. Desistiu no último ano da faculdade de medicina quando decidiu ingressar na vida artística, se unindo aos amigos Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Cirino entre outros nomes cearenses do inicio da década de 1970. Em 1971 migra para o Rio de Janeiro em busca de mostrar sua música e gravar um disco. Naquele mesmo ano, foi campeão o IV Festival Universitário da MPB, com a canção "Na Hora do Almoço", cantada por Jorge Teles e Jorge Melo. O título despertou a atenção dos críticos para o então desconhecido compositor. Em 1972, a grande estrela da música brasileira Elis Regina grava "Mucuripe" no disco "Elis", uma poesia de Belchior musicada por Fagner. A gravação da canção elevou o nome do compositor e do parceiro Fagner. A pequena gravadora Chanceler deu uma chance ao rapaz cearense, lançando no ano de 1974 o primeiro disco "Belchior" assim auto intitulado. O trabalho é pequeno e bem simples. A voz anticonvencional do compositor não atraiu muita gente. Mas através da indicação de Elis Regina e do apoio de Roberto Menescal, Belchior chegou em uma das maiores gravadoras do país, e gravou pela Phillips o que seria um verdadeiro clássico do cancioneiro brasileiro.
Em 1976, o disco "Alucinação" foi lançado com a produção do respeitado Mazzola. As letras cortantes, realísticas e poéticas mostraram ao Brasil que surgia uma boa nova na canção brasileira, que ainda vivia as lembranças do tropicalismo, e a boa nova se chamava Belchior. O sucesso foi absurdo e imediato. Não foi preciso sequer muita divulgação da gravadora, pois o disco já tomava as vitrolas dos brasileiros como febre. Foram mais de 200 mil cópias vendidas e um globo de ouro, escolhido pelo público como o melhor cantor e pela crítica da época como o melhor compositor e melhor disco de 1976.  A musicalidade do disco é uma mistura de ritmos nordestinos com elementos do rock e do folk. Beatles e Bob Dylan sempre foram as grandes referencias de Belchior, e suas influencias são bem notáveis no álbum.


"Apenas Um Rapaz Latino Americano" foi a principal canção do "Alucinação". Um sucesso estrondoso em todas as rádios do país, sendo considerada seguramente como a música do ano de 1976. A faixa tem arranjos de gaita e guitarras de blues. A letra extensa relata a essência do compositor, de simplicidade comportamental e atitude intelectual. O respeitado e intelectualizado Caetano Velozo (assim considerado pela crítica) foi o grande sujeito de críticas da canção. Belchior chama-o de ultrapassado em tom sarcástico, no trecho "um antigo compositor baiano me dizia: 'Tudo é divino Tudo é maravilhoso'". O cearense ainda conclui a crítica musicada se opondo a ideia fantasiosa do baiano quando canta "Mas sei que nada é divino. Nada é maravilhoso". A forma direta de dizer o que pensa do compositor se evidencia também em versos como:

 "Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém"
E a crueza da realidade tratada são versadas na mesma canção:
"Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior"



Em "Velha Roupa Colorida" vê-se a poesia do compositor, que metaforiza o passado à uma roupa antiga, quando versa: "No presente a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais.
"Como Nossos Pais" é clássica. Considerada por muitos como a melhor composição de Belchior. É uma poesia atemporal. Versos como "Viver é melhor que sonhar", "Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração" e  "Na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais" ilustram bem toda a profundidade lírica da faixa.
Em "Sujeito de Sorte" mostra-se bem a verve nordestina do compositor. Guitarras gritantes ao balanço de algo que mescla  rock e baião. Com certeza tem a musicalidade mais interessante do disco.
"Como o Diabo Gosta" é curta e rebelde, com o lema cantado "sempre desobedecer, nunca reverenciar".
"Alucinação" é outra faixa formidável do disco. Firme e direto, como não sentir o impacto destes versos?
"Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente, romances astrais
A minha alucinação é suportar o dia-a-dia
E meu delírio é a experiência com coisas reais"

 
"Não Leve Flores" é outra canção bem arranjada. Solos de guitarras e arranjos de sanfona enfeitam a faixa sob a bateria marchante e cativante. A poesia se faz presente em trechos como "Palavra e som são meus caminhos pra ser livre, e eu sigo sim!"
"A Palo Seco" canta o sentimento rebelde e desprendido do artista, quando versa "Eu quero é que esse canto torto corte a carne de vocês". A canção já havia sido gravada no disco anterior, e em qualidade de arranjo muito superior a esta do "Alucinação". Nesta regravação os arranjos dos teclados de José Roberto enfraqueceram muito a música. A delicadeza dos efeitos sintetizados soam em discordância com a agressividade dos versos. Uma das melhores canções de Belchior ironicamente soa fraca no melhor disco do artista. Coisas da música...
"Fotografia 3x4" é uma espécie de autobiografia cantada. Toda a trajetória de Belchior ate chegar ao sucesso de "Alucinação". Soa aqui mais uma faísca contra as ideias de Caetano Velozo. Desta vez, sem metáforas, mas bem direta : "Velozo, o sol não é tão bonito pra quem vem."
"Antes do Fim" fecha a obra ao som do velho e bom folk de Bob Dylan. E Belchior deixa seu último recado no álbum avisando : "Não tome cuidado comigo, que eu não sou perigoso. Viver é que é o grande perigo."

"Alucinação" é um disco que sempre estará no coração daqueles que amam a palavra inteligentemente cantada, com verdade, realidade e poesia. Seu lugar na discografia clássica brasileira sempre será irretocável, sendo digno de muito admiração, inspiração e memória.

Ouça agora mesmo o disco na íntegra. Faça o download gratuito, clicando no link abaixo:
            http://www.mediafire.com/download/jbb65owp19zot53/b-alu.rar

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